avalo pode
atravessar a água venenosa.
- Nas Cidades Livres há navios aos milhares - disse-lhe Dany,
tal como já tinha lhe dito antes. - Cavalos de madeira com
cem pernas, que voam pelo mar em asas cheias de vento.
Khal Drogo não queria ouvir falar do assunto.
- Não falaremos mais de cavalos de madeira e cadeiras de
ferro - deixou cair o pano e começou a se vestir. - Hoje irei
para o campo caçar, mulher esposa - anunciou enquanto se
enfiava num colete pintado e afivelava um cinto largo com
pesados medalhões de prata, ouro e bronze.
- Sim, meu sol-e-estrelas - Dany respondeu. Drogo levaria os
companheiros de sangue e partiriam em busca do hrakkar, o
grande leão branco das planícies. Se regressassem em triunfo,
a alegria do senhor seu marido seria feroz, e talvez estivesse
disposto a escutá-la.
Ele não temia animais selvagens ou nenhum homem que já
respirara, mas o mar era outra coisa. Para os dothrakis, água
que um cavalo não pudesse beber era algo de impuro; as
agitadas planícies verde-acinzentadas do oceano enchiam-nos
com uma repugnância supersticiosa. Dany descobrira que
Drogo era mais corajoso que os outros senhores dos cavalos
em meia centena de maneiras diferentes... mas naquilo, não.
Se ao menos conseguisse levá-lo a entrar num navio...
Depois de o khal e os companheiros de sangue terem partido
com seus arcos, Dany mandou chamar as aias. Sentia agora o
corpo tão gordo e desajeitado que acolhia de bom grado a
ajuda de seus fortes braços e mãos hábeis, ao passo que antes
se sentia frequentemente desconfortável com o modo como
elas se agitavam e volteavam ao seu redor. Limparam-na e
vestiram-na com sedareia, leve e solta. Enquanto Doreah lhe
escovava os cabelos, mandou Jhiqui à procura de Sor Jorah
Mormont.
O cavaleiro veio de imediato. Trazia calções de pelo de cavalo
e um colete pintado, como um dothraki. Rudes pelos negros
cobriam-lhe o peito largo e os braços musculosos.
- Minha princesa. Como posso servi-la?
- Precisa falar com o senhor meu marido. Drogo diz que o
garanhão que monta o mundo terá todas as terras para
governar e não precisará atravessar a água venenosa. Fala em
levar o kha-lasar para o leste depois de Rhaego nascer, a fim
de saquear as terras em torno do Mar de Jade.
O cavaleiro ficou pensativo.
- O khal nunca viu os Sete Reinos - ele respondeu. - Para ele,
não são nada. Se chega a pensar neles, não há dúvida que
pensa em ilhas, algumas cidades pequenas agarradas às
rochas à maneira de Lorath ou Lys, rodeadas por mares
tempestuosos. As riquezas do leste devem parecer-lhe uma
possibilidade mais tentadora.
- Mas ele tem de ir para oeste - disse Dany, desesperada. - Por
favor, ajude-me a fazê-lo compreender - ela também nunca
vira os Sete Reinos, tal como Drogo, mas era como se os co-
nhecesse de todas as histórias que o irmão lhe contara.
Viserys prometera-lhe mil vezes que um dia a levaria de
volta, mas agora estava morto e as promessas tinham
morrido com ele.
- Os dothrakis fazem as coisas ao seu ritmo, pelas suas razões
- respondeu o cavaleiro. -Tenha paciência, princesa. Não
cometa o erro do seu irmão. Iremos para casa, prometo-lhe.
Casa? A palavra a fez sentir-se triste. Sor Jorah tinha sua
Ilha dos Ursos, mas o que era casa para ela? Algumas
histórias, nomes recitados tão solenemente como as palavras
de uma prece, a memória que se atenuava de uma porta
vermelha... Estaria Vaes Dothrak destinada a ser a sua casa
para sempre? Quando olhava para as feiticeiras do dosh
khaleen, estaria olhando para o seu futuro?
Sor Jorah deve ter visto a tristeza em seu rosto.
- Uma grande caravana chegou durante a noite, khaleesi.
Quatrocentos cavalos vindos de Pentos, via Norvos e Qohor,
sob o comando do Capitão Mercador Byan Votyris. Illyrio
pode ter enviado uma carta. Deseja visitar o Mercado
Ocidental?
Dany agitou-se.
- Sim. Gostaria - os mercados ganhavam vida quando uma
caravana chegava. Nunca se sabia que tesouros os
comerciantes poderiam trazer, e seria bom voltar a ouvir
homens a falar valiriano, como nas Cidades Livres. - Irri,
diga-lhes para prepararem uma liteira.
- Vou dizer ao seu khas - disse Sor Jorah, retirando-se.
Se Khal Drogo estivesse com ela, Dany teria montado sua
prata. Entre os dothrakis, as mães permaneciam montadas
quase até o momento do parto, e ela não queria parecer fraca
aos olhos do marido. Mas com o khal longe, na caça, era
agradável encostar-se a almofadas suaves e ser transportada
através de Vaes Dothrak, com cortinas de seda vermelha para
protegê-la do sol. Sor Jorah selou o cavalo e seguiu a seu lado,
com os quatro jovens do seu khas e as aias.
O dia estava quente e sem nuvens, o céu de um azul profundo.
Quando o vento soprava, Dany conseguia sentir os ricos
odores das plantas e da terra. A medida que a liteira ia
passando sob os monumentos roubados, passava da sombra
para o sol, e de volta à sombra, balançando, estudando o
rosto de heróis mortos e de reis esquecidos. Perguntou a si
mesma se os deuses de cidades queimadas ainda podiam
atender a preces.
Se eu não